A RECRIA pretende cultivar a ideia de que crianças e adolescentes merecem ser estudados e escutados pela academia e pelas produções midiáticas.

Mesmo que atualmente já existam leis e certa conscientização da sociedade civil em relação à publicidade infantil nas mídias tradicionais, as propagandas destinadas a esse público encontram território fértil e pouco regulamentado nas redes sociais. No jornalismo, crianças e adolescentes comumente são representados por seus pais ou especialistas, sem autonomia.

Ainda assim, o debate acerca do assunto é escasso. Acadêmicos e comunicadores veem com resistência pesquisas voltadas para a investigação do tema, mantendo as infâncias e adolescências, especialmente no Brasil, invisibilizadas.

Para transformar essa situação, foi criada a Rede de Pesquisa em Comunicação, Infâncias e Adolescências (RECRIA). O grupo, que nasceu em 5 de março de 2021, defende a escuta, o acolhimento e a compreensão das crianças e adolescentes na produção midiática em suas diferentes realidades. Para a Rede, é importante dar protagonismo à faixa etária na Comunicação, enxergando-os como sujeitos do “hoje” e não apenas cidadãos “do amanhã”.

A fim de entender melhor o trabalho da RECRIA, a Communicare conversou com 3 das 10 cofundadoras: Angela Farah, professora no Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv); Juliana Doretto, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguagens, Mídia e Arte e do curso de Jornalismo da Pontíficia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas); e Thaís Furtado, professora permanente do curso de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Confira:

Communicare: Quais os objetivos da Rede e como ela vai atuar?

Angela Farah: A RECRIA tem como objetivo fundamental promover a reflexão sobre a relação entre as infâncias, as adolescências e as mais diversas práticas midiáticas, como o jornalismo, a publicidade, o cinema, o entretenimento, as redes sociais, entre outras. 

A Rede busca fomentar o campo científico no Brasil a partir do olhar da Comunicação. Ela se volta para o modo como as crianças e os adolescentes são representados pela mídia e também para os usos que elas fazem dos diversos suportes e linguagens midiáticas, sempre mobilizando saberes interdisciplinares e olhando através de diferentes vieses e correntes de pensamento.

Para desenvolver isso, pensamos em três vertentes de atuação: a articulação entre pesquisadores, o estabelecimento de projetos de investigação e extensão conjuntos e a organização de eventos e publicações. A RECRIA também compreende que uma maneira importante de atuar junto a essas três vertentes é estabelecendo diálogo com pesquisadores estrangeiros – sobretudo íbero-americanos e de países africanos lusófonos.

Communicare: Quais os principais problemas da relação entre crianças, adolescentes, mídias e tecnologias hoje, no Brasil, que a rede pretende enfrentar?

Juliana Doretto: Nós acreditamos que há, primeiro, uma área importante de atuação: o campo acadêmico. Percebemos, pelo retorno de alguns estudos e avaliação dos nossos trabalhos, que ainda existe um grande preconceito dentro da área acadêmica com pesquisas que estudem a relação entre crianças, adolescentes e a Comunicação.

A crença é a de que não vale a pena ouvi-las, como se elas não fossem capazes de elaborar reflexões importantes sobre as próprias vivências. Ou de que elas são “super poderosas”, porque nasceram em um mundo já digitalmente conectado em rede e, por isso, não teriam problemas a serem enfrentados. Ou, ainda, de que as crianças não têm poder algum, não interferem em nada, não são seres atuantes na sociedade, então não merecem ser estudadas.

Dessa forma, nosso ponto inicial é afirmar ao campo acadêmico da Comunicação a importância da realização dessas pesquisas sem essa dicotomia – sem enxergá-las como “super poderosas” ou como seres totalmente submissos, mas entendendo as diferentes realidades.

O segundo ponto é que todas essas questões também se espalham pelo senso comum, através da cobertura midiática e da publicidade. As crianças e os adolescentes continuam sendo enxergados através desse binômio. 

Então, a nossa batalha é nos dois campos, simultaneamente. Ao mesmo tempo que tentamos interferir no campo acadêmico, criando espaços de pesquisa e apresentação de trabalhos e fomentando o tema, também intervimos na sociedade por meio de conversas, publicações direcionadas a profissionais de Comunicação e formações nas graduações ou para profissionais da área. Queremos problematizar essas questões e mostrar as realidades múltiplas e complexas das crianças e dos adolescentes em suas relações com os meios de Comunicação.

Communicare: Que contribuições as pesquisas da Rede podem oferecer para transformar essa realidade?  

Thaís Furtado: Ao nos unirmos em rede, nós conseguimos ampliar o debate sobre a importância do respeito à criança e ao adolescente tanto por parte das mídias como por parte dos pesquisadores da área da Comunicação. Nós nos sentimos fortalecidas podendo trocar ideias e dividir experiências de pesquisas ao termos criado a RECRIA.

Acho que a grande contribuição que a Rede traz é mostrar que existe muita gente pesquisando sobre a relação da Comunicação com as infâncias e os adolescentes em todo o Brasil e também em Portugal. O que nós queremos é convocar esse debate para o mercado de trabalho e para a academia. A discussão é urgente para que a criança e o adolescente sejam respeitados, ouvidos e acolhidos pelo jornalismo, pela publicidade e por todas as produções da área.

A nossa união nos fortifica e faz com que consigamos amplificar esse desejo pelo respeito em relação à criança e ao adolescente na Comunicação.

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Escrito por:

Michelle Prazeres

Michelle Prazeres

Doutora em Educação (USP) e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) , é jornalista formada pelo Centro Universitário da Cidade, com especialização em Jornalismo Online na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na Cásper Líbero, leciona Novas Tecnologias da Comunicação no curso de Jornalismo. É especialista em projetos educativos com uso de tecnologias digitais e em projetos de comunicação e tecnologias para a ação social e os direitos humanos.

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